Eu nunca prestei atenção em coisas indecifráveis, até tu aparecer.
Preparar o café, comprar o pão, juntar a sujeira, bater com o travesseiro, te acolher em meus braços, dividir o mesmo cigarro, sorrisos, lagrimas por paixão, fazendo contas matemáticas enquanto tu escolhias a tal música para me mostrar, de lugares para casa, da casa para os beijos. Era o mesmo percurso de todos os dias.
Lembro-me do nosso sexo na janela, com uma xícara de café que caiu do oitavo andar esparramado em gargalhadas, com canções e palavras que só eu posso descrever, olhando para o céu, enquanto me beijava o pescoço. Sentiria como se fosse algo impossível, inacreditável, surpreendente, simplesmente único. Mas que teria seus consequentes. Era o mesmo percurso de todos os dias. E eu te adorava por isso.
Nos momentos que eu sentava na pia do banheiro, e tu me sujava de maquiagem. E sempre repetia a mesma frase: - Tu és tão linda, mesmo parecendo uma louca. E eu respondia apenas com um sorriso de mulher instigante. Eu sabia que quando eu saísse do banho, tu estarias me esperando, com um livro na mão, e prontamente a me envolver em teus braços. Era o mesmo percurso de todos os dias. E eu gostava.
Eu nunca saberia que dormiria assim nos braços de outro, que me sentiria tão abrigada e ao mesmo tempo tão apreciada. Confortada, seria a palavra certa. Mas na verdade sempre soube que um dia isso iria acabar, pois nossos corações eram errantes, sim combinavam, mas não poderíamos dividi-los com o mundo. Primeiro eu desapareci, por pensar que seria melhor.
Mas foi diferente. Acabei te jogando para fora da minha vida, para fora do meu mundo, para fora dos meus livros. E me arrependi. Mas foi melhor, por que vi em teus olhos, que tu precisavas ir, e que eu precisava ficar.
E sei que tu voltarás, e talvez eu não esteja em casa. E sei que eu não vou estar.
Até o próximo verão, talvez nem eu seja mais a mesma. Tento me encontrar em afagos de desconhecidos, mas no mesmo instante cai a face ao chão, cada suspiro, a vista da lua, a paciência das histórias, o jogo do alucinar e alucinando me fazia feliz, em pequenas quantidades. Isso bastava. Nos percursos dos meus dias.
Andando de esquina a meia quadra, a ouvir o ronco dos tropeços, encolhidos por serem de quem não são. E onde tu estarás? Destes bares, qual irei te encontrar?
Comparsas de crime, insanidade carnal, fogo de metáforas escondidas por de baixo da escada. Saiba que nunca ira ser substituído, e que ainda tens o teu cheiro, o teu marco em meu corpo, na minha alma, na minha essência. Tu ainda fazes parte da minha história contada.
Algumas pessoas na rua, e eu voltando para casa.
Era uma sensação tão estranha, o mesmo discurso, como se eu estivesse completamente sozinha. O vento batia nos meus cabelos, o meu olhar era extenso. Era o mesmo percurso de todos os dias. Os dias que passam. Eu sinto teu cheiro. Olhando para traz, imaginando que qualquer pessoa com o mesmo perfume seja você. Era o mesmo percurso de todos os dias.